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Dia 3 em Praga

Hoje vamos tirar a manhã para explorar as ruas de duas das áreas clássicas de Praga: o bairro judeu, Josefov, e Mala Strana (que significa "Bairro Pequeno"). Vamo-nos encontrar à entrada para a ponte Karlovo, do lado Este, ou, se preferir, defronte do Teatro Nacional. Seja como for, o primeiro acto consistirá na travessia, pela segunda vez, da ponte Legii, que surge no seguimento da avenida Narodni. Desta vez não visitaremos nenhuma ilha, mas assim que a ponte acabe, vamos sair para a direita, passar em frente a um belo edíficio de apartamentos de finais do século XIX e descer umas escadinhas. Estamos na ilha Kampa, diferente das restantes ilhas do Vltava. É que aqui, o visitante casual não se aperceberá que está rodeado de água. Do lado Oeste, corre a Ribeira do Diabo, que se separa do Vltava, contorna este bloco de terra antes de se reencontrar com o grande rio. É uma área cheia de charme. Perto da entrada que tomámos encontrará um simpático café, o Mlýnská. Talvez uma pausa seja prematura, mas se assim o decidir, fica a sugestão. Contudo, devo desde já avisar, o percurso desta manhã estará repleto de encantadores cafés e restaurantes, tantos que não serão individualmente nomeados. Se se mantiver atento, difícil será escolher.

Perto da entrada do Mlýnská verá uma azenha de madeira bastante fotogénica. De resto, não é a única. Mais para a frente existe um outro engenho, igualmente impressionante. No extenso relvado que ocupa a área central de Kampa, os praguenses trazem os seus cães para um passeio. Nos bancos, pares de namorados enrolam-se de forma ternurenta. Do lado direito, virado para o rio, encontra-se um dos restaurantes mais caros que conheço em Praga. Se não se quer assustar, não veja o menu. Daqui até à ponte Karlovo, à frente, e até à colina Petrin, do lado esquerdo, é Mala Strana. Sinceramente, a minha área favorita de Praga. Cada pedaço deste pequeno bairro viu muita História. E contudo, estranhamente, a multidão de turistas não chega até aqui, mantendo-se fiel ao seu carreiro de formigas, que se estende entre a praça antiga e o castelo, cruzando a ponte Karlovo. Tanto melhor para nós, que podemos explorar livremente estas pequenas ruelas. Prepare a câmara fotográfica, aqui há muito que trabalhar. Beethoven ficou numa destas casas. Noutro ponto, . O muro de John Lennon é "apenas" mais um dos muitos pontos de interesse de Mala Strana. Se estiver a nevar, tanto melhor. Estas ruas não ficam em nada prejudicadas com o manto branco, que nos remete para o imaginário de outros tempos, quase medievais.

Por fim há-de desembocar na via que conduz à ponte Karlovo, inconfundível, pejada gente. Desta feita vamos segui-los. Quem sabe o que veremos na ponte. Os artistas de rua são ali quase todos notáveis. Mas o que queremos é chegar a Josefov, que se inicia assim que o tabuleiro da ponte termina, se virarmos à esquerda.

Em Josefov encontrará um punhado de atracções turísticas, mas como já deve ter percebido, quando toca a celebridades preferimos dar a voz a quem sabe. Estamos aqui para vos mostrar a Praga menos exposta, fora dos lugares-comuns guardados para os turistas. Assim, simbolicamente, deixamo-vos às portas de Josefov, com carta branca para explorar livremente. Não se impressione com o preço das entradas nas atracções "obrigatórias", como o cemitério judeu (de facto, cobrar bilhete para se entrar num cemitério.....). Ah! À laia de graça, um desafio: se encontrar a ruela chamada Anezska, poderá ver a casa mais pequena de Praga. Irá indentificá-la sem qualquer dificuldade. E posso dizer-vos que fica exactamente a 180 m em linha recta do restaurante que seguidamente vos sugiro.

Quando estiver despachado da ronda por Josefov, diriga-se em direcção do rio. Procure a avenida Parizska ou a ponte Cechuv. Quero mostrar-vos o La Casa Blu, restaurante e/ou bar sul-americano que serve os melhos nachos con chili que consigo imaginar. Talvez seja melhor anotar as direcções exactas aqui.

Se aceitou esta sugestão para o almoço, regresse até à ponte Chechuv, junto da qual encontrará a paragem do eléctrico 17. Apanhe-o, no sentido oposto ao da ponte. Saia em Vyton. Ande um pouco, passe por baixo da ponte ferroviária e inicie a subida da rua Vratislavova. Estou a conduzi-lo a Vysehrad, núcleo histórico da cidade. Em tempos, foi o primeiro local que visitei, depois de chegar a Praga cheio de expectativas. E o amor à primeira vista aconteceu. Vysehrad é hoje um bairro, uma estação de metro. Mas o Vysehrad que vamos visitar é uma antiga fortaleza. No seu interior, muita coisa vai se encontrada: a rotunda de São Martinho, uma pequena capela circular românica do século XII; o cemitério, onde se encontram sepultadas grandes figuras da História e da cultura checa; as muralhas, com deslumbrantes vistas sobre o rio, sobre o bairro de Podoli, sobre a parte sul de Praga; a neogótica igreja de São Pedro e São Paulo, fundada inicialmente também no século XI. E como está na República Checa, vai encontrar um jardim da cerveja e sobretudo muita vida genuinamente local. Os idosos que vêm dar o seu passeio, avós com netos pela mão, mães empurrando os seus carrinhos de bébé, pares de namorados. Se vier até aqui no final de Primavera ou no Verão, sobretudo ao fim-de-semana, é natural que seja brindado com qualquer espectáculo surpresa perto do relvado da grande igreja. Ali se reúnem grupos heterógeneos, disfrutando dos raios de sol que escasseiam noutras partes do ano.

Vysehrad tem vários acessos. Vou-lhe pedir que procure encontrar a saída na direcção do rio. Será discreta, porque não é mais que um caminho pedestre que desce a encosta, depois de ultrapassada a muralha. Mas dar com ela é deveras intuitivo. Quando desembocar na rua estará nas traseiras de um bloco construido sob a influência cubista. Contorne-o pela direita se desejar. De resto, vou sugerir-lhe que caminho um pouco junto ao rio, no sentido oposto ao que chegou. Vai atravessar o túnel que certamente avistou lá de cima, da fortaleza, sobre o qual se erguem ainda vestígios de um dos bastiões medievais de Vysehrad. Pouco depois vai avistar uma simpática marina, que alberga o Clube Naval, e cujas águas gelam por completo no Inverno.

Logo à frente tem a paragem de eléctrico Podolska Vodarna. Apanhe qualquer um dos eléctricos que passem na direcção em que tem estado a caminhar. Quando entrar no transporte, repare no espantoso edíficio que vai surgir após um par de centenas de metros, do lado oposto ao do rio. É de facto a Podolska Vodarna, a central distribuidora de água, construida em 1925 sobre uma primeira estrutura ali erigida quarenta anos antes, e que veio solucionar os sérios problemas de abastecimento à cidade de Praga no início do século XX. Mais à frente, do mesmo lado, avistará o principal complexo de piscinas da cidade. Depois de passar por ele, saia na segunda paragem, denominada Przhistavishte. Atente na impressionante formação rochosa, que se debruça sobre o rio. Ande um pouco para trás, atravesse um pequeno parque e irá encontrar um acesso pedestre que subirá toda aquela encosta. Atreva-se! Suba. Lá em cima, um outro jardinzito com um miradouro memorável. Uma vista inesperada de uma parte da cidade menos conhecida. Do outro lado do rio verá morros do mesmo tipo, que oferecem, também eles, belos passeios e perspectivas excelentes. Vislumbrará o bairro de Barrandov, onde se encontram os estúdios com o mesmo nome, núcleo da produção cinematográfica dos Checos. Que é muita e boa, apesar de desconhecida pelo mundo fora. Por mim falo, quando cheguei a Dobeska - nome milenar do bairro que se estende nesse planalto - compreendi pela milésima vez porque gosto tanto de Praga.

 

 

 

 

12 de Novembro de 2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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