Metródomo

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É bem provável que o turista casual encontre este bizarro elemento nas suas deambulações por Praga. O pêndulo ou metronomo, concebido por Vratislav Novak e construido em 1991, ergue-se no topo das colinas que se estendem pela margem ocidental do rio Vltava, no enfiamento da ponte Chechuv, que por sua vez é a sequência natural do eixo que sai da praça antiga e que segue pela avenida Parizska.

Subir até à plataforma onde o mecanismo faz oscilar o pêndulo é simples: de um e do outro lado encontram-se amplas escadarias que dão acesso ao patamar superior, a partir do qual se pode apreciar uma bela vista sobre o rio e sobre a parte antiga da cidade. Em redor, provavelmente encontrará jovens checos executando malabarismos com skates e outros artefactos com rodas. O local é também um óptimo ponto de partida para se seguir à descoberta do parque de Letna, que o circunda.

Mas o que poucos turistas saberão é o “secreto” passado que aquela plataforma testemunhou. Em 1949, pouco depois do golpe que conduziu os comunistas ao poder absoluto na Checoslováquia, foram iniciados os preparativos para a construção de uma megalómana estátua de Estaline em Praga. Os trabalhos duraram cerca de cinco anos e meio, e quando finalmente foi inaugurada, a 1 de Maio de 1956, as dimensões do trabalho surpreenderam todos. A figura de Josef Stalin dominava o grupo de proletários que o seguiam, num conjunto com 15,5 m de altura e 22 m de comprimento. Mas uma medição a partir do solo tornava as dimensões ainda mais impressionantes: 50 metros!

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Os habitantes de Praga arranjaram imediatamente forma de parodiar a massa de 17,000 toneladas: considerando a configuração da estátua, chamaram-lhe “Fronta na maso”, ou seja, a fila para a carne, numa alusão à dificuldade em adquirir bens alimentícios, que na altura implicava intermináveis horas de espera.

Os mais supersticiosos encontraram uma sequência negra de eventos associada à estátua: o seu criador, Otakar Švec, não aguentou a pressão que estava a ser exercida sobre ele por parte da polícia secreta e por cidadãos descontentes com a omnipresença do líder soviético em Praga, e suicidou-se (?) três semanas antes da inauguração. O homem que serviu de modelo de Estaline, um electricista que trabalhava nos estúdios Barrandov, não aguentou as chalaças com a sua nova alcunha, “Stalin”, e morreu três anos depois.

Todo o esforço envolvido na construção deste grandioso monumento foi desperdiçado, uma vez que pouco depois se iniciou o processo de “destalinização” na máquina de Estado Soviética, com a tomada de poder de Nikita Krutschev. Em 1962 chegaram ordens de Moscovo para a destruição da estátua. Foram precisos 800 kg de explosivos para tratar do assunto. Rezam as crónicas que após a primeira explosão, a cabeça do ditador georgiano se soltou do corpo granítico, rolou pela encosta, e se afundou no Vltava. Os restos do monumento foram transportados em camiões, numa parada que passou pelo centro de Praga, sob os aplausos da multidão. Era o fim do maior monumento estalinista do mundo.

Durante os 30 anos que se seguiram o local ficou ao abandono. Assinala-se a utilização de um pequeno abrigo contra bombardeamentos que se encontra sob a plataforma para as emissões da rádio pirata Radio Stalin, após 1990. O mesmo local foi depois explorado como discoteca, encontrando-se agora encerrado.

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

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