A estátua de que hoje vos falo pode ser encontrada nas imediações da estação central de comboios – Hlavni Nadrazi – e será um pormenor de somenos importância numa cidade com a riqueza cultural da capital da República Checa. Mesmo assim, tem uma significância que convém referir.

Defronte da estação existe um pequeno parque, tristemente conhecido pela legião de desfavorecidos que ali fazem vida, gentes que dormem nos seus bancos e usam aquele espaço como lar. Mas ao mesmo tempo é ponto de passagem de vastos milhares de checos e estrangeiros, nas suas rotinas diárias, que envolvem a utilização do sistema de caminhos-de-ferro. Mas voltemos ao que nos interessa: a estátua em questão encontra-se para o lado direito de quem virar as costas ao terminal ferroviário, já quase no limite do parque, com a paragem de eléctricos à vista.

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O monumento foi inaugurado nos anos 60, durante os anos do regime comunista, e pretendia ser uma homenagem ao dia da libertação de Praga (como “libertação” entenda-se a expulsão dos últimos alemães em Maio de 1945, no final da Segunda Guerra Mundial). Durante os anos de controle soviético esse tipo de monumentos proliferou, não só em Praga, mas também em toda a Checoslováquia (ver a história do tanque cor-de-rosa). Contudo este tem uma particularidade relevante: é o último sobrevivente. Não só da comemoração da chegada dos Soviéticos, mas, de todo, trata-se do último monumento de inspiração comunista na cidade.

A estátua representa um abraço e um beijo fraternal – muitos dirão, para além disso, com laivos de homossexualidade – entre um “libertador” soviético e um militar checo. Mas existe uma mensagem relativamente discreta no trabalho: o soviético ergue-se altivo, imperioso, claramente maior no sentido de escala, sendo abraçado a partir de baixo por uma figura de dimensões mais reduzidas, assumindo uma posição de subserviência feminina. A mensagem era evidente e reflectia uma realidade diplomática que se projectou durante décadas no relacionado entre a União Soviética, e a teoricamente soberana Checoslováquia.

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

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