Se os leitores forem como eu, gostarão de visitar sítios que parecem não ter nada de mais, mas que na realidade encerram histórias extraordinárias; são locais onde podemos partir para o mundo feito de imaginação e rever cenas de um passado marcante, ouvir os sons de então, ver as pessoas que calcaram o mesmo pedaço de calçada onde os nossos pés agora assentam. Nesse caso, recomendo-vos um passeio até à Vivenda Čapek. Para todos os outros certamente Praga terá algo melhor para oferecer.

Os irmãos Čapek foram duas figuras determinantes da cultura checa da Primeira República – designação dada ao curto período em que a Checoslováquia viveu enquanto país independente, entre 1919 e 1938. Karel, talvez o mais famoso dos dois, distinguiu-se pela escrita, especialmente na área da ficção científica, algo que nos anos 30 tinha algo de pioneirismo; foi o criado do termo robot, palavra derivada do verbo “trabalhar”, apesar de numa carta Karel atribuir a ideia ao seu irmão. Josef escreveu também, mas focou-se mais na pintura.

Por assim dizer tudo começou quando os pais Čapek se mudaram para Praga, em 1907, vindos da sua Úpice materna. Nesses primeiros anos a família viveu num pequeno apartamento na bela Mala Strana, perto de Ujezd, na rua Říční.

Em 1920 os manos começaram a pensar mudar-se para o seu próprio lar. O plano ganhou forma e entre 1923 e 1924 uma casa desenhada pelo arquitecto Ladislav Machoň foi construida num pacato recanto de um bairro de vivendas em Vinohrady.

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O imóvel pode ser enquadrado no estilo “nacional”, com influências do período tardio do modernismo de Kotěra. Debaixo do mesmo telhado vamos encontrar dois apartamentos independentes, um para cada irmão, desenhados de forma simétrica.

Um ano após a sua construção, em 1925, Josef Čapek mudou-se para a nova casa, na companhia da esposa Jarmila e da filha Alena. O irmão seguiu-lhe o exemplo, que trouxe consigo o pai de ambos, o ilustre médico Antonín Čapek, entretanto feito viúvo. Por essa altura, que foram os anos de ouro de Praga e da cultura checa, quando a vida parecia prometora e cheia de opções, a casa alojou também o gato Pudlenka e um fox-terrier de nome Iris.

capek-villa-02Podemos imaginar os habitantes da vivenda a usufruir do amplo jardim, dividido em dois, cada metade reflectindo as preferências de um e de outro irmão: o lote de Karel estava metodicamente organizado, posteriormente incluindo uma pequena rocha que lhe foi trazida pelos mineiros da sua cidade-natal, Svatoňovice, enquanto Josef preferia deixar o seu em estado natural.

Durante essa época feliz a vivenda teve convidados influentes na política e na cultura do jovem país. Reuniam-se sobretudo na sala do apartamento de Karel, geralmente às Sextas-feiras. O nome mais importante seria Tomáš Garrigue Masaryk, nada mais nada menos do que o Presidente da Checoslováquia, mas tinha sempre companhia ilustre, embora para os menos familiarizados com o panorama do país nesta época os nomes nada digam:Ferdinand Peroutka, František Langer, Karel Poláček, Josef Kopta, Eduard Bass, Vladislav Vančura, Václav Rabas, entre outros. Das conversas de Karel com Masaryk nasceu aliás um dos seus livros, entitulado precisamente de “Conversas com Masaryk” (traduzido para inglês)

capek-villa-04Em 1938 a festa acabou. Esse foi o ano em que a Alemanha nazi anexou o que é hoje a República Checa e criou um Estado satélite na actual Eslováquia. E foi também o ano em que Karel Čapek faleceu, prematuramente,  vítima de pneunomia, no dia de Natal. Quanto a Josef, foi preso pelos nazis e enviado para o campo de concentração de Bergen-Belsen onde morreu nos últimos dias da guerra.

Recentemente a casa foi comprada pelo munícipio de Praga aos herdeiros dos Čapek, por uma verba considerada escandalosa por muitos. O futuro nos dirá se o investimento terá valido a pena.

 

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

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