Um final de tarde que se estende, um serão… na companhia de um copito de tinto. E mais um. E outro. E ainda outro. Do lado oposto da mesa, aliás, ao meu lado, a Jana. Que do outro lado já estava ocupado. Uma senhora de ar digno mas bem humorado teve a gentileza de nos convidar para a sua mesa, que todas as outras já estavam tomadas. Não será de estranhar. A tasquinha da esquina tem apenas 3 ou 4 pequenas bancas. Pelas sete e meia era suficientes para albergar o público. Pelas oito e meia o pequeno espaço já tinha cinco ou seis almas de pé, copo na mão, conversa animada. É a tasquinha do bairro. Ponto de encontro de vizinhos de outros tempos, gente bem metida pelos seus sessenta anos, que quiçá terão inaugurado a paróquia de Vrsovice, há muitos, muitos anos atrás. Sentem-se as cumplicidades de décadas de resistência. Mas o que é verdadeiramente espantoso é a ausência da mítica hostilidade checa. Aquela gente, definitivamente, é especial. Serão os ares de Vrsovice dotados de miraculosos atributos gasosos que colocam um sorriso na boca de quem os respira?

Por detrás do balcão, uma mulher que noutros tempos foi linda de morrer, coloca o queixo sobre o balcão, ainda com toques de musa fatal, enquanto nos pergunta o que desejamos beber. Derrete-se na conversa rápida com a Jana, olhos dengosos, gesto rápido, aparente prazer no que faz. Muito saberá sobre todos aqueles que por ali páram, dia após dia. É a versão bem checa do “barman”, amigo de todas as horas, sempre presente.

Uma hora e meia muito bem passada. No final, deixar 54 Coroas (2,50 Euros) por seis copos de vinho. E mais uns trocos, que a beldade decadente nos presenteou com uns palitos salgados para entreter o dente, sem nada pedir em troca. Onde estão estes espaços em Portugal, terra de vinho, que deixa cair os seus créditos em tudo para os “adversários” mais insuspeitos, como esta República Checa, cheia de tasquinhas e casas de vinho, em terra de cerveja e despida de vinha?

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

1 Comentário

  1. Olá Ricardo,
    Sou português, actualmente vivo na Catalunha (estou fora de Portugal há 7 anos e pico) e estou a pensar sair daqui para ir viver em Praga.
    Se ainda continuas com este teu excelente blog e se me queres contactar, eu tería muito gosto já que necessito umas luzes sobre a vida aí em Praga.
    Obrigado e cumprimentos !!

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