Não sei como isto aconteceu, mas foram dois anos, sim, dois anos, mais dia menos dia, sem botar aqui palavra. Não pode, não se tornará a repetir. É verdade que este português já não está em Praga. Correcção: já não está em Praga como antes, oito meses em cada doze, de corpo presente. Mas a alma está por lá, sempre. E quanto ao físico ainda se lhe junta pelo menos uma vez por ano, às vezes mais. Mas pronto, considerandos à parte, não tornará a acontecer.

Deixo aqui umas linhas para dar uma explicação sobre esta retirada. Duas razões: a primeira, mais práctica e determinante, foi a inviabilidade financeira; estar numa cidade sem gerar dinheiro mas gastando uma renda extra, e enfrentando uma inflação galopante tornou-se insustentável. Nos três anos que vivi em Praga a situação evoluiu de preços que faziam sorrir para um cenário onde quase tudo custava pelo menos o mesmo que em Portugal; a quebra de rendimentos “back home” associada ao aumento do custo de vida em Praga foi o fim.  Talvez tivesse conseguido prolongar a permanência, num derradeiro esforço, não fosse um certo desencantamento em relação à vida social que tanto me tinha encantado nos primeiros anos.

Mas tudo está em aberto. Há projectos em curso. É as coisas endireitarem-se e, pelo menos a título de experiência, lá vou eu, em busca do estilo de vida perdido.

E então, porque decidi desenferrujar o cadeado deste caderninho de apontamentos que é o “Um Português em Praga”. Se calhar foi por ter ganho hoje o meu primeiro “seguidor”. Acho que é o primeiro. Certamente será o primeiro em muito tempo. Depois, saído de um duche tomado ao som do “swing” checo dos anos 30, apeteceu-me. Talvez as memórias da minha imaginária costela checa tenham sido demasiado fortes. A verdade é que estas viagens ao tempo de ouro da Checoslováquia têm sempre este efeito. Ponho-me a imaginar aquelas ruas da capital de uma jovem nação, tão cheia de vitalidade e orgulho do seu recém-adquirido estatuto. Aquilo foram vinte anos em cheio! Duas décadas em que a Checoslováquia se alinhou com os países mais desenvolvidos da época. Enquanto na Bulgária, Roménia e Hungria o cenário político era dominado por ditaduras de direita associadas a monarquias obsoletas, a Checoslováquia abria a sua história com um democracia bem-sucedida; a Alemanha debatia-se pela profunda crise que se seguiu à Primeira Guerra Mundial; as nações escandinavas mantinham-se à tona, países feitos de casinhas de madeira; os espanhóis eram conduzidos a uma terrível guerra civil, sempre agarrados aos seus inúteis rosários; os portugueses, mantinham-se no seu canto, terrivelmente provincianos e tacanhos. Mas a Checoslováquia abraçava os princípios que hoje associamos à pseudo-unidade a que chamamos Europa Ocidental. As suas cidades fervilhavam de actividade intelectual. Eram cosmopolitas. Havia uma sólida cultura de cafés. A música e o cinema não paravam de produzir e as universidades tornaram-se instituições sólidas. E foi por esses tempos de ouro que o meu pensamento andou hoje enquanto a água quente me devolvia algum conforto em mais um dia de inverno neste Portugal gelado.

Agora, sugiro que abram este link, de preferência noutra janela, para dar ambiente para as fotos que se seguem. Há outras músicas da época que prefiro mas escolhi este pela participação do tio-avô de uma grande amiga minha, o tipo da esquerda. R.A. Dvorský foi talvez o símbolo máximo do “swing” checo, nesses anos d’ouro da rádio. Quem tenha interesse em aprofundar, siga este link.

O cafe Louvre, que ainda hoje existe, apesar de algumas décadas de encerramento.
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Enquanto uns anos depois em Portugal os lisboetas se escandalizavam com as senhoras que fugiam da guerra e iam fumando o seu cigarrinho, aqui...
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republika (2)
Uma cena de café na Praga dos anos 30
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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

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