Talvez seja impressão, talvez seja parte de um fluir em eterno retorno, que marca gerações após gerações com um estigma de falsa diferença. Mas a verdade é que me dá a ideia que os gloriosos salões de snooker de Lisboa (e portanto, de outras cidades de Portugal) se tornaram com o tempo obsoletos, cairam em desgraça, em situações de inviabilidade financeira, e acabaram por conhecer destinos díspares. Não sei se ainda há resistentes, ou se uma tarde de Inverno bem passada inclui ainda umas tacadas sem fim lá para as Avenidas Novas. Recordo-me dos finais de dia de Junho, o dia de praia a terminar, o buraco enorme deixado pelo cessar do ano lectivo, e uma passagem quase a correr pelas mesas de snooker de um qualquer salão. Mas isto são memórias com uma ligação, já se verá.

Ora hoje, depois de quatro dias de cama com a primeira gripe da época, aventurei-me até ao lado de lá da rua para um hamburguer a sério, do Fraktal, regado com a incontornável cerveja. Cansaço, alguma febre. Terminada a refeição, paguei, e caminhava para casa antevendo já um serão preguiçoso, a seguir os pontapés na bola dos grandes Inter de Milão e Chelsea. Não podia estar mais enganado. Ao virar da esquina dou com um bando de amigos que se encaminhavam para um encontro de snooker, numa sala de bilhares mesmo ali ao lado, apenas a quatro portas do restaurante que tinha acabado de deixar. Ora agitação social era coisa que estava longe dos meus planos, mas não reuni coragem para desafiar o destino que me tinha colocado naquela esquina naquele preciso momento. E lá fomos, por assim dizer, de forma quase literal, “cantando e rindo”.

E ali estava ele, um verdadeiro salão clássico. Já o meu companheiro de apartamento, rapaz de Praga, nado e criado no bairro do lado, me tinha referido as suas tardes de jogatana entre aquelas paredes. Há coisas que não mudam. Podem alterar-se os nomes e os locais, as temperaturas e as bebidas, mas as memórias destes ambientes afinal são as mesmas. Lisboa e Praga são separadas por pouco mais de 3.000 km, mas, já se vê, unidas, quanto mais não seja, por este passado comum, esta cumplicidade adquirida de giz azul esfregado em taco de bilhar e olho maroto nas garotas.

Na antesala parámos por uns minutos para encomendar as primeiras cervejas e esperar pelo agrupamento das tropas. Na enorme TV sobranceira ao balcão os eslovacos batiam os noruegueses em hóquei no gelo, em desafio a contar para os Jogos Olímpicos de Inverno, disputados em Vancouver, que os checos seguem com o mesmo espírito religioso com que em Portugal se acompanham os Europeus e Mundiais onde a Selecção continuadamente faz furor.

E depois foi jogar. Duas mesas para o grupo. Ambiente adorável. Sala espaçosa, nem às moscas nem atafulhada. Junto à parede lateral, mais extensa, uma série de mesas com uma romântica luz amarela emprestava um toque de café clássico aquele salão de bilhares. Entre elas, separadores de madeira, à laia de biombos. E moças, das bem giras, em dois pequenos grupos, que trocavam impressões a meia voz. E nisto a imaginação descola e vou logo fantasiando sobre os encantos e desencantos que aquele espaço testemunhou já. Paixões concretizadas e sonhos destruidas. Emoções, muitas emoções. E a enorme História, de H bem maiúscula que ali se foi passando ao longo de décadas e décadas de vida em Praga.

Para o fim, a febre apertava, uma enorme vontade de fechar os olhões que absorveram todos aqueles recantos com sofreguidão, que avistaram mesmo os tais fantasmas de um passado sem registo formal. Afinal, ainda fui a tempo de ver os últimos minutos de um insipiente Inter 2 Chelsea 1. Não sem antes se pagar a despesa sob a batuta implacável do mestre de contas do local, checo ao pior nível, cheio de fel e antipatia… talvez com um velho coração destroçado pela menina dos seus olhos, talvez uma Jana, ou quiçá uma Šarka, muitos muitos anos atrás…  junto a uma daquelas mesas.

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

1 Comentário

  1. É. Parece que as salas de snooker se tornaram fantasmas. Não que eu frequentasse muitas, mas as que frequentava naqueles alegres furos das aulas, ou daquelas noites de inverno, ou deixaram de existir ou estão ao desmazelo.
    Mas salão salão, do que me lembre, o de Alcantara, continua vivo, mas o aspecto e aquele… sujo, cheio de gente feia, mesas e tacos velhos, bolas gordurosas!
    Os tempos agora são outros… um ou outro amigo tem a mesa de snooker em casa. Levo a garrafa de licor beirão e está feita uma noite de alegria.

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