Abril, 2010. Os dias de Praga estão a chegar ao fim. Sinto uma vaga tristeza, em memória dos dias bons que passaram. A vida aqui arrasta-se, num turbilhão em câmara lenta, de tentativas de desenterrar as referências tão depressa ganhas como perdidas. Onde estão os amigos que fiz desde 2007…? Onde estão as caminhadas em grupo pelas montanhas? Os fim-de-semana de Inverno nas casas de campo dos meus amigos checos? As tardes ociosas de volta de uma mesa repleta de copos vazios de cerveja…? Procuro o que deixou de existir, sinto falta do apartamento da rua Na Struze e do flatmate de sempre.

E é neste estado de espírito que surge este plano de final de tarde. Depois das horas de trabalho, tempo que em Abril se estende indiferente ao passar das horas, encontrar-me-ei com a Eva, no bairro onde vive. Já mal sendo Praga, Štěrboholy é tecnicamente parte da grande capital, mas desde tempos imemoriais que foi apenas uma aldeia de província. Foi aqui que em 1757 o exército prussiano esbarrou na defesa austríaca. A Batalha de Štěrboholy iniciou-se às primeiras horas da manhã do dia 6 de Maio, e pelas 5 da tarde estava tudo acabado. Resultado: vinte e seis mil homens mortos, os austríacos em fuga, sem saberem ainda que Frederico o Grande, perante as baixas sofridas, tinha desistido de investir contra Praga.

Como acontece nas grandes cidades da Europa Central (Budapeste, Viena, Bratislava, Praga), há uma linha clara de separação entre o fim do meio urbano e o início dos campos, da ruralidade envolvente. E Štěrboholy está precisamente sobre essa linha.

Sai do autocarro na paragem combinada para o encontro e nada de Eva. Esperei e esperei… estranhei e preocupei-me. Com a ajuda dessa do telefone móvel o problema foi identificado: existem duas paragens de autocarro exactamente com o mesmo nome – Ústřední. Eu estava numa, ela esperava na outra. Confusão desfeita, cumprimentos trocados, começámos a andar.

Um grande cartaz publicitário mostrava os encantos de um qualquer destino de praia. Creio que era na Grécia, mas parecia mesmo uma das praias do nosso Algarve. Disse-lhe:

” – Olha, tão engraçado, parece mesmo lá de onde eu venho”

E ela, olhou para onde eu apontava. Depois lançou-me um olhar de soslaio, um misto de desconfiança traquinas e confusão…

” – Ricardo, não entendo… se sempre viveste num sítio como aquele, que parece o Paraíso, porque é que vieste para Praga?”

Tive que lhe recordar que assim é o humano. Sempre quer o que não tem, seja lá o que for. Durante os anos que passei em Praga ouvi esta pergunta muitas vezes. A resposta era sempre dentro disto:

” – Desejamos o que não é nosso, sempre. Vocês suspiram pelo mar, pelo tempo quente, pelo Inverno verdejante. Mas eu nasci e cresci rodeado de mar. Adoro a vossa montanha, as vossas tão marcadas quatro estações, as tempestades de neve, o frio de muitos graus negativos, a História que se respira em cada canto desta cidade. É assim.

Entretanto, envergonhado, matutava na melhor forma de expôr um problema que me atormentava: estava faminto, tinha que comer, ou corria o risco de cair para o lado – de forma figurativa, claro. Acabei por perguntar:

” – Eva, escuta, não leves a mal, mas não tive tempo de comer nada desde a hora do almoço… será que tens alguma coisa, qualquer coisita mesmo, que se trinque, lá para casa?”

E foi assim que parámos brevemente na casa que o pai da Eva construiu para ela e para o irmão. Uma casa, dois andares, duas habitações. Eu fiquei na rua. Ela voltou passado um par de minutos. Trazia várias coisas mas o que me ficará na memória para sempre foram os mirtilos. Nunca tinha comido mirtilos na vida. Na realidade, desde esse dia tornei-me consumidor desse fruto silvestre, e este texto foi inspirado por mais uma caixinha de mirtilos comprados no LIDL a preço de ouro. Aquele dia de Abril de 2010 criou um laço indestrútivel que une mirtilos à Eva. Não posso comer uns quantos sem pensar nela e naquele agradável fim de tarde.

Depois, fomos andando, depenicando as bagas, partilhando. Entrámos campo dentro, conversando sobre tudo e sobre nada. À beira de um lago sentámo-nos, e ali escutei confidências, desabafos, de uma vida regular, que não deixa de ser importante. O tempo corria, implacável como o é sempre, com o enorme sol de Primavera a mostrar o seu cansaço, mergulhando lá longe no horizonte. Acabámos por nos levantar. Ainda fiquei por Štěrboholy para um serão passado no restaurante local, onde Michal, o irmão, se nos juntou. Tive que correr para apanhar o último autocarro. E corri a bem correr, porque por terras de Praga há uma coisa que não sucede nunca: um autocarro passar atrasado. Foi por uma unha negra. E este bocado em Štěrboholy ficou como uma das últimas boas memórias dos anos de Praga.

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

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