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Ontem estava aqui a vasculhar umas fotografias quando dou por umas que me arrancaram um sorriso nostálgico. Dia 1 de Março de 2008. Um temporal abate-se sobre a região de Praga, com ventos ciclónicos a fustigarem as ruas e a deixarem um rasto de destruição atrás de si. Dois “praguenses” morreram, vítimas de acidentes causados pela intempérie. E foi no meio deste caos que algo que um grupo de pessoas partiu do centro de Praga em direcção a Okor, uma pequena aldeia dos arredores onde se encontra um imponente castelo em ruínas. Veio o Iain, um escocês de Glasgow com um sotaque que torna qualquer conversa num exercício de adivinhação (especialmente depois de uma cerveja e sendo futebol o tema da conversa); e o Daniel Plavecky – que se traduz para Daniel Nadador – um rapaz checo; o Cameron, um americano que tinha conhecido há uns poucos dias num encontro de couchsurfers; e apareceu o Pepa e seu cão, um enfermeiro, também checo, que, se fosse um super-herói, teria como poder a capacidade de fazer amigos em poucos segundos onde quer que fosse ou estivesse; a única mulher do improvisado grupo era uma viajante da qual não me recordo o nome.

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O Pepa, vi-o mais um par de vezes, sempre com aquele sorriso capaz de derreter os corações mais empedernidos. E sempre a fazer amizades, onde quer que fosse. Com o Iain mantive um contacto distante até hoje. Mas o Cameron e o Daniel tornaram-se os meus melhores amigos para os anos que se seguiram.

Acima de tudo, o dia de Okor, também conhecido como o dia da tempestade, marcou o início de uma era, definida pelos passeios de cada fim-de-semana, que se iniciavam quase de madrugada, incluiam marchas de 12 a 22 km e acabam invariavelmente numa tasca de província com muita cerveja e uns queijinhos. Eventualmente, esses passeios acabaram, como acaba tudo o que é bom e mau. Cada um seguiu o seu caminho, apesar de um contacto débil que se mantém. Mas a memória ficou.

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Neste dia, apesar de na altura eu não o saber, foi lançada a semente para o meu projecto comercial na República Checa, que nasceu, cresceu, mal, e morreu, ainda criança. Isto de organizar passeios na natureza para viajantes tinha muito potencial, mas com a indústria de turismo que existe no país é muito complicado fazer ouvir a nossa voz publicitária acima do elevado nível de ruido que existe… mesmo que só nós tenhamos uma coisa diferente a “dizer”.

Mas regressemos a esta primeiro de Março. Feita a caminhada, que envolveu uma paragem para visitar um cemitério de igreja e a exploração do castelo propriamente dito – que estava encerrado e necessitou de ser conquistado à bruta, numa escalada de invasão pura e dura – acabámos a jornada, já de noite, num bar que por milagre encontrámos aberto naquela pequena aldeia. Tinhamos mais de uma hora até ao próximo autocarro, preenchida com boa cerveja.. tão boa que, entretidos a ouvir as histórias dos novos amigos do Pepa, que contavam como foi rodado naquela mesma sala um filme pornográfico à séria, nos distraímos, saímos a correr, ainda na esperança de apanhar o transporte. Passado 5 min estávamos de volta, para mais uma hora de espera e umas quantas cervejas. Foi nesse dia que comi a minha primeira sopa de alho e compreendi logo a sua capacidade de resuscitar um morto. Não há frio nem cansaço que atormente depois de uma terrina daquelas!

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

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