É um evento jovem. Iniciou-se em Março de 2014 e até ver tem lugar duas vezes por mês, aos Sábados de manhã, na praça Tylovo náměstí, conhecida carinhosamente pelos habitantes de Praga como Tylak. Este recinto é aliás usado noutros dias como feirinha de agricultores, podendo-se nessas ocasiões comprar por ali legumes e frutas orgânicas.

Muitos conhecerão esta feira simplesmente como a feira de velharias de IP Pavlova, ou, em inglês, flea market of IP Pavlova. Este estranho nome corresponde a uma área de Praga. Não é bem um bairro, é mais uma abstracção que tem como epicentro a estação de metro com o mesmo nome, parte da linha vermelha. IP Pavlova é nem mais nem menos Ivan Petrovich Pavlov. Os primeiros nomes reduzidos às iniciais e o famoso apelido transvestido de acordo com a declinação checa para este caso gramatical resultam então em IP Pavlova. O homem do reflexo. O de Pavlov. Já sabe então qual a melhor forma de aqui chegar, se não se sentir à vontade para caminhar, o que será uma pena porque é um belo passeio a partir do centro, e se for esse o caso, então aproveito para sugerir que o faça a partir do rio, quase em linha recta, em vez da via mais tortuosa e, na minha opinião, não tão interessante, a partir da Praça Venceslau.

velharias-ippavlovaA zona reservada à feirinha é simplesmente perfeita. Quando não está a ser usada por nenhum evento é simplesmente um pequeno parque urbano com sabor a praçeta. Tem o seu relvadito, os bancos de jardim e umas quantas árvores. Elementos que em dia de feira passam despercebidas. Nessas ocasiões espalham-se bancadas de todas as formas por aquele 80 ou 100 metros. Quem não as tem, expôe os seus produtos directamente no chão. E aguarda, pacientemente, pelo cliente que pode nunca vir.

Os vendedores são só por si dignos de observar. Há-os de todos os géneros: semi-profissionais das antiguidades, de ar digno de quem entende do assunto, trocando ocasionais impressões entre si. E jovens que precisam de fazer uns cobres e estão ali para vender algumas coisas de que já não precisam ou que conseguiram que alguém lhas doasse. Há o cidadão anónimo, gente perfeitamente normal, sem um traço característico, o checo de classe média que ali vai montar banca só porque sim, porque lhe apetece ou acha piada a passar a manhã de um Sábado à conversa com desconhecidos. Há os velhotes, coitados, que têm muita tralha lá para casa cuja venda poderá complementar magras pensões de reforma.

Os produtos para venda variam de igual modo. Numas bancadas vemos coisitas novas, produzidas pelos vendedores, à laia de artesanato. Noutras, a verdadeira essência das antiguidades, elementos curiosos, alguns sem um fim ou utilidade evidente, expostas como se estivessem na vitrina de um qualquer museu. E há os petiscos, feitos com amor por quem os vende, as fatias de bolo, as limonadas.

fleamarket-02Uma das coisas boas desta feira é que tem o tamanho ideal: entra-se, atravessa-se, chega-se ao fundo, onde está um pequeno lago com uma fonte, e volta-se pelo outro lado, vendo as bancadas opostas. Em menos de quinze minutos pode-se tornar a sair trazendo, quanto mais não seja, uma nova experiência. Neste breve período de tempo, certamente inofensivo, incapaz de transtornar o rigoroso plano do turista que tem que usar cada minuto para conhecer a cidade, terá observado um mosaico da sociedade local, respirado a sua essência, observado a sua memória.

Quem sabe não encontrará aqui a recordação perfeita, algo de pessoal, um objecto antigo que tenha uma etiqueta invisível a dizer: “Essência de Praga”… certamente mais adequado do que os souvenirs fabricados em fábricas chinesas e vendidas a preço de ouro nas lojas especializadas da cidade antiga.

A feira tem um website próprio: pravyblesitrh.cz. Aqui poderá consultar o calendário exacto e, com a ajuda da tradução automática incorporada, ler um pouco mais sobre o evento.

Sendo localizada nas imediações de Namesti Miru, esta feira enquadra-se perfeitamente no Passeio por Vinohrad, apresentado num outro artigo.

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

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