Um Passeio por Vinohrady

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O bairro de Vinohrady é hoje uma das mais apetecíveis escolhas para residir em Praga. Localiza-se num segundo anel, imediatamente a seguir ao centro. Dispõe de excelente acessibilidade, mas o valor do imobiliário não atinge os níveis astronómicos de Mala Strana ou Starometska.

É muito apreciado pela comunidade de estrangeiros que por aqui vivem, não os parentes pobres, vietnamitas ou ucranianos, mas uma franja de privilegiados: americanos, australianos e ingleses, que tradicionalmente se estabelecem em Praga durante alguns anos para ensinar inglês e viver a aventura checa; franceses, portugueses, italianos, belgas, suecos… que desempenham funções em empresas multinacionais ou por qualquer razão decidiram experimentar tudo o que a vida de Praga tem para oferecer. Não se pense porém que Vinohrady está entregue aos estrangeiros. Mas sem dúvida que esta multiplicidade contribui, e muito, para oferecer o toque cosmopolita de que este bairro actualmente dispõe.

Muitas das artérias de Vinohrady encontram-se enriquecidas com fileiras de árvores, que lhes conferem um ambiente ainda mais agradável, a fazer lembrar os bairros mais românticos de Paris. São muitos os cafés, todos com uma personalidade própria. Embora os haja, esta não é uma área de pubs puros e duros. Isso é coisa para o bairro de Zizkov, operário, rude, duro. Vinohrady é a terra do requinte, a grande zona burguesa da primeira metade do século XX.

Um passeio por estas ruas surpreenderá o turista que pense que os belos edifícios e o esplendor arquitectónico estão confinados à “baixa” de Praga, à cidade antiga e central. Na realidade, um dos aspectos da capital dos Checos que não para de surpreender é a extensão da estética patrimonial.

É preciso avançar mesmo muito em direcção à orla da cidade para chegar aos subúrbios descaracterizados, formados por blocos de apartamento de betão. Por aqui, é o Art Noveau, o Pseudo-Barroco, o Neo-Renascentismo e o Neo-Gótico que dominam. Basicamente o parque habitacional de Vinohrady é constituído por edifícios da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do século XX, dispostos numa planta quadrangular. Alguns encontram-se algo decadentes, mas a maioria tem vindo a ser objecto de obras de reclassificação, e encantam habitantes e visitantes.

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O nome do bairro, Vinohrady, significa “vinhas”, e deve-se à plantação de vinhas mandada efectuar pelo rei Carlos IV no século XIV. Na realidade, até finais do século XIX a área chamava-se Kralovské Vinohrady, ou seja, “vinhas reais”. Até meados do século XVII as vinhas originais perduraram, mas acabaram por dar lugar a outras culturas e, finalmente, ao bairro que hoje conhecemos. Com a expansão urbana a área ganhou um estatuto comunitário, e em 1879 Kralovské Vinohrady tornou-se cidade, antes de ser incorporada definitivamente em Praga, o que sucedeu em 1922. Apenas em 1968 ganhou a sua denominação atual.

Mas vamos ao nosso passeio? Comecemos por Namesti Miru, talvez o coração do bairro. Para lá chegar podemos apanhar um eléctrico das carreiras 22, 10 ou 16, mas talvez seja mais simples utilizar o Metro, cuja linha verde tem aqui uma estação (com o mesmo nome, Namesti Miru).

O marco mais saliente da praça é a magnífica igreja de Santa Ludmila, construída em estilo Neo-Gótico entre 1888 e 1893. Muitos foram os nomes grandes das artes Checas que contribuíram para a edificação desta igreja, mas o principal destaque vai para Josef Václav Myslbek, o escultor responsável pela famosa estátua equestre que se avista na praça Venceslau, defronte da entrada do imponente edifício do Museu Nacional.

Se for Dezembro, poderá visitar aqui um dos bons mercados de Natal que se organizam um pouco por toda a cidade. Se estiver virado para a fachada da igreja, atente agora à sua esquerda, do lado de lá da rua, um pouco mais à frente: verá o Divadlo Na Vinohradec, um belíssimo teatro, construído nos primeiros anos do século XX, com o intento de reforçar a cultura em língua checa (por oposição ao teatro em alemão, que até há bem pouco tempo dominava todo o cenário artístico de Praga).

Mesmo por detrás da igreja, mais um edifício curioso, a Národní dům, ou seja, a “casa nacional”. Trata-de um prédio construido em 1894, em estilo Neo-Renascentista, que alberga eventos de grande nível nos seus sumptuosos salões.

Sugiro que passe pelo lado direito da “Casa Nacional” e vá subindo a a Korunni. Vire na terceira à esquerda, que será a Budečska, e ande mais um pouco.

Do seu lado direito encontrará o Vinohradsky Pavilon. Foi construido em 1904, também em estilo Neo-Renascentista, e durante décadas albergou o mercado de Vinohrad. Depois da Revolução iniciaram-se ali as obras de reconversão, e quando reabriu, em 1994, apenas o seu exterior mantinha uma ligação com o passado. Lá dentro encontrava-se o que à data era um dos mais modernos centros comerciais da cidade. Actualmente encontra-se quase ao abandono, com as lojas encerradas, vítimas dos novos espaços, mais apelativos, maiores, enfim, na moda. Se quer comprar alguns abastecimentos, aproveite: existe um supermercado Albert na cave.

Encontra-se agora na Vinohrádska, um dos eixos principais do bairro, apesar da sua situação marginal, definindo a fronteira entre Vinohrad e Žižkov. Ande cerca de 450 m, para cima, uma boa parte dos quais serão acompanhados por um pequeno jardim urbano, à sua direita.

Chegará à praça Jiřiho z Podehbrad, onde se ergue uma outra igreja, de estilo bem distinto da anterior: Nejsvětějšího srdce Páně (não se deixe impressionar pelo nome). Foi construida em 1928 por Josip Plečnik, um arquitecto esloveno que desempenhou um importante papel na remodelação do Castelo de Praga. Deixe a praça pela rua Nitranska, à direita, se estiver virado para a fachada da igreja. Se tiver fome, aconselho o Sudicka, precisamente nessa rua.

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Quando chegar à Korunni, vire à direita, e volvidos umas poucas dezenas de metros verá a Vinohradska vodarna, uma maravilhosa torre de água, construida por Antonín Turka, de novo em estilo Neo-Renascentista, em 1891. Esteve funcional, como elemento vital do sistema de distribuição de água do bairro, até 1962, altura em que a estrutura foi convertida para albergar apartamentos.

Mesmo por detrás poderá visitar uma bizarra igreja, a Husův sbor (igreja Hussita), construida no início dos anos 30 por Pavel Janák. Saltará imediatamente à vista a torre sineira, construida como um poste de betão, com uma escada espiral exterior. Na parede, um memorial assinala o papel desta igreja no levantamento contra os ocupantes alemães, em Maio de 1945, quando ali foi instalado o quartel-general da Resistência.

E, apesar de muito mais existir para ver neste bairro, está quase concluido o nosso passeio. Se desejar avançar um pouco mais, por sua conta e risco, caminhe para Sul, consulte o seu mapa, e encontre o jardim Havlíčkovy. Do jardim, construido no topo de uma colina, é possível ainda observar-se numa encosta os últimos vestígios das vinhas que outrora cobriam toda esta área. De destacar ali a casa apalaçada Villa Gröbe, construida como residência de Verão para o industrial Moritz Gröbe em 1871.

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

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