Não há ocasião social onde a pergunta não seja vocalizada. Porquê que um estrangeiro, um Português, escolheu Praga para viver? Os primeiros palpites falham irremediavelmente. Não, não estou aqui para trabalhar; e também não me casei com uma Checa. É mera paixão. Pela cidade, pelo país, pelo povo. Foi amor à primeira vista, nascido naquele dia de Outubro, há quatro anos, em que aqui aterrei pela primeira vez. Racionalizar? Explicar? Posso tentar, mas a emoção daquela tarde de Outono em Vysehrad, o impacto da estética sem fim que reina sobre a cidade,  a sensação de explorar um denso bosque no coração de uma metrópole não se podem traduzir em palavras. Tudo o que vivi nestes últimos anos, as experiências excepcionais, os amigos de peito, os momentos mágicos… tudo isso sem tem confirmado o instinto do primeiro momento. Viver em Praga e sobretudo viver Praga é um privilégio, e sinto uma enorme satisfação por este me ter sido proporcionado em determinada fase da minha vida. Mas permitam-me, agora sim, sistematizar, organizar ideias que dêem resposta a este enorme “porquê?”.

Primeiro, porque a beleza me toca profundamente e Praga é dominada por um enorme sentido estético. Não só o que foi deixado por Checos e Austríacos de outros tempos, mas o que é hoje perpetuado. O povo local cultiva o belo, nos mais pequenos detalhes. E isso nota-se, é eternecedor.

Segundo, é diferente, é uma cidade clássica, é o sonho de um antigo estudante de História tornado realidade; o ambiente é inspirador de tudo o que há de melhor numa pessoa. Pegar num livro, sair de casa e escolher um dos incontáveis locais de onde se pode disfrutar da cidade é um exercício que se poderia perpetuar até à eternidade, sem nunca se tornar enjoativo.

Terceiro, é seguro, com níveis de crime violento residuais. Que diferença, cruzar as ruas e os parques, a qualquer hora, sem sentir a suspeição no olhar das pessoas, espetada no nosso peito ou costas como um punhal afiado. Sair de um bar, já ébrio, e caminhar até casa sem sentir a necessidade de espreitar por cima do ombro ao dobrar de cada esquina, deambular sem destino pela grande cidade e saber que não existem fronteiras de segurança a respeitar; tudo isto é uma nova forma de viver, para um rapaz nado e criado em Lisboa.

Quarto, é barato. Ainda. Está certo que nem tudo o é, mas os bens de primeira necessidade são-no, incluindo transportes, alimentação e… bebida.

Quinto, adoro o povo. Que é como a sua bebida de eleição, a cerveja: não é para todos e pode ter que se aprender a gostar. Amo a forma como persistem em viver a vida, aproveitando cada momento livre para sair, em família com com amigos, para disfrutar da natureza, para fazer exercício físico. Aqui os centros comerciais não se enchem aos fins-de-semana e as ruas não se esvaziam ao serão. Simplesmente não faz parte da natureza das pessoas esse projecto quotidiano de se encerrarem em casa, vendo televisão, até à jornada de trabalho do dia seguinte.

Sexto, existe uma vida social em ebulição. Poderá ser mais complicado (mas não impossível) interagir com os checos de gema, mas existe uma activa comunidade de residentes estrangeiros que preenche as necessidades sociais de qualquer indíviduo.

Sétimo, aprecio o clima. Venha o frio de Inverno se é Inverno! Vivam as quatro estações do ano, louve-se a diversidade, o aproveitamento do que a natureza nos pode dar a quatro vozes! Para trás ficou a monotonia dos longos verões de meio ano, dos céus azuis dia após dia até fazer esquecer que existe um mundo onde o tecto que nos cobre tem outras cores. Que bom é variar todo um estilo de vida consoante a época do ano… valorizar o convívio e as longas noites entre amigos enquanto a never cai lá fora; explorar a deslumbrante Natureza quando chega a Primavera e usufruir dos belos parques que a cidade tem para nos oferecer; sentir o ambiente de fiesta permanente no Verão, quando as pessoas se tornam descontraidas e bem-dispostas; e apreciar o Outono ameno, com tudo em aberto, dominado pelas cores quentes que cobrem o mundo que nos rodeia.

Oitavo? Sem dúvida que existe um oitavo… e um nono… e um décimo, e muitos mais. Mas os sete primeiros, creio, são  suficientes para uma leitura que se pretende breve. E estou convencido que permitirão ao leitor compreender-me.

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

4 Comentários

  1. Estou marcando viagem à Praga no final de janeiro. Ao pesquisar sobre a cidade, entrei nesse site e adorei tudo, é realmente encantadora a forma como vc descreve a cidade. Percebe-se que fala com o coraçao. Adorei mesmo. Espero ler mais artigos seus até a data da viagem.

  2. Vou iniciar com 3 amigos (estudantes de enfermagem) um interail na próxima segunda-feira, dia 29 de Julho. Ficaremos em Praga de 3/4 a 6 de Agosto (sensivelmente). Não temos muito dinheiro, por isso precisamos de um sítio realmente barato para ficar… Alguma sugestão?

    Obrigada. Obrigada também pelo blog,

    Rita.

    • Rita, sabes como é… quando um gajo vive num sitio aprende de tudo menos sobre estas coisas de hotelaria. Há uns anos o hostel Elf era bom, tive amigos que trabalharam lá, mas não sei se se mantém recomendável.

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