As raízes da construção do teatro nacional, como sucede com tantos outros elementos em Praga, têm que ser procuradas no terreno fértil do nacionalismo que por aqui grassava em finais do século XIX. Os checos, cansados de séculos de ocupação estrangeira, aspiravam à instauração da sua própria Nação, e, nos tempos que se viviam, um teatro digno era essencial para a afirmação dos checos enquanto povo totalmente autónomo.

O primeiro passo para a construção do teatro deu-se em 1845, quando um grupo de notáveis checos sugeriu às autoridades que considerassem a possibilidade de fazer surgir um espaço de espectáculos em pedra, que funcionasse em complemento do já existente Stavoské divadlo, onde raramente eram encenadas peças em língua checa. Cinco anos depois, em 1850, ocorre a primeira reunião da Comissão para a Construção do Teatro Nacional, após a qual se iniciaram as campanhas de colecta de fundos.  Por toda a cidade se passeavam voluntários transportando caixas para a recolha de dinheiro, construidas na forma do edíficio projectado, onde se lia a inscrição “Na Zdar” (que significa, “ao sucesso”, e que possivelmente terá inspirado a expressão checa de brinde, “Nazdar”, correspondente ao nosso “saúde”).

Entretanto, a escolha do local onde o futuro edíficio se erigiria revelava-se polémica.  Foram inventariadas nove possibilidades, de entre as quais se destacavam Staré Mesto, Václavské námesti e Karlovo namesti. Por fim, foi selecionado o lote de terreno de onze hectares onde hoje se encontra o Teatro Nacional, que levou ao desespero os arquitectos, preocupados com a natureza lodosa do terreno e com o seu formato trapezoidal irregular, enquanto os nacionalistas se deliciavam com o simbolismo do local, a meio caminho entre dois pontos emblemáticos: o castelo de Praga e Vysehrad.

Em 1862, não tendo sido ainda possível iniciar a obra monumental que estava no pensamento dos pioneiros do movimento, foi construido um teatro provisório, projectado pelo arquitecto Ignac Ullman, que viria a ser parte integrante do projecto final. Três anos depois, um núcleo mais dinâmico que desde sempre advogara a concretização do ambicioso plano inicial solicitaram a Josef Zitek, um jovem professor de Engenharia Civil no Colégio Técnico de Praga, um esboço arquitectónico para o futuro teatro. Zitek não só apresentou uma proposta válida como venceu um concurso público posteriormente organizado, e, quando as obras se iniciaram em 1867, seguiam o seu plano.

Em 1868, quando o assentamento de fundações teve lugar, o simbolismo nacionalista revelou-se com toda a clareza: de todo a parte foram enviadas pedras retiradas de locais de extrema importância para os checos, enviadas para o local da obra em carruagens faustamente decoradas (a comunidade checa nos EUA enviou uma pedra com a inscrição “o que o sangue une, o oceano não pode separar”, que contudo chegou apenas em 1869), num desfile festivo que culminou com a cerimónia da primeira pedra, a que assistiram vinte mil pessoas.

A partir dai a obra decorreu em boa cadência: em 1875 o edíficio estava erigido e em 1877 o telhado estava concluido. O interior foi decorado segundo os parâmetros definidos por uma comissão especialmente criada para o efeito, liderada por Sladkovský: o Neo-Renascentismo e a Mitologia Eslava  associar-se-iam a temáticas inspiradas pelas Escrituras.

Em 1881, apesar de trabalhos menores se encontrarem ainda em curso, o teatro estava pronto para a inauguração formal, prevista para Setembro. No dia 11 de Junho, para celebrar a visita do principe Rudolfo, a ópera Libuse, de Smetana, foi ali apresentada a um público entusiasmado, a que se seguiram onze actuações antes do encerramento do teatro para os retoques finais.

Contudo, no dia 12 de Agosto, a tragédia abateu-se sobre o Teatro Nacional. Um incêndio provocado pelas obras que decorriam alastrou dramaticamente a vastas áreas do edíficio. Os bombeiros alegadamente chegaram tarde e sem a quantidade de água que seria normal; as bocas de incêndio criadas no local não funcionaram. E assim, o palco do magnífico teatro foi arruinado, o telhado ardeu e o candelabro de tonelada e meio de peso despenhou-se no solo com enorme estrondo.

Mas a determinação do povo checo estava mais forte que nunca. Em apenas um mês foram reunidos um milhão de florins, quantia suficiente para iniciar de imediato as obras de recuperação. Entretanto, Josef Zitek, incomodado com as acusações de negligência face à possibilidade de ocorrência de sinistros, manifestou-se indisponivel para liderar a inesperada adenda. Foi o seu discipulo Josef Schulz que assumiu a responsabilidade da reconstrução, aproveitando para integrar o edíficio de apartamentos do Dr. Polák, que passaria a fazer parte do Teatro. Assim, num toque de génio, foram integrados três edíficios arquitectonicamente díspares em apenas um (o terceiro era o teatro provisório construido em 1862).

Por fim, no dia 18 de Novembro de 1883 deu-se a inauguração oficial, de novo com a ópera Libuse, de Smetana.  Para a ocasião foi cunhada uma série especial de moedas, a partir do metal fundido do candelabro semi-destruido pelo incêndio de 1881.

O edíficio foi tão primorosamente equipado, que operou durante quase cem anos, sem necessidade de obras de fundo. Apenas em 1977 foi encerrado por um período de seis anos, durante o qual o arquitecto Zdeněk Vávra comandou um projecto de recuperação e ampliação. Foi construido o vasto parque de estacionamento subterrâneo e um novo espaço de espectáculos (Nová Scéna), desenhado por K. Prager; a fachada deste novo espaço é composta por 4306 prismas de vidro e no seu interior foi construido um palco circular. Precisamente no dia em que se comemorava o centésimo aniversário da inauguração do Teatro Nacional, este foi devolvido à vida, de novo com a ópera Libuse em cena.

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

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