Matylda

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Era uma tarde cinzenta, fria, chuvosa. E eu estava decidido a encontrar um cantinho prazenteiro, onde pudesse usufruir do prazer de uma boa leitura, num ambiente acolhedor e na companhia de uma chávena de chocolate quente.

Subi a bordo, e logo ao transpor a porta fui recebido com um enorme sorriso: “-Dobry den”. Que é como quem diz, “Boa tarde”. Respondi, primeiro em checo, passando depois para inglês. Perguntei se era possível tomar apenas uma bebida. A bonita empregada disse que sim, que não havia qualquer problema nisso, e convidou-me a segui-la até uma mesa.

Sugeri que me fosse permitido instalar numa outra, mais pequena e com cadeiras menos confortáveis, mas em localização nobre, no canto da coberta, completamente rodeada de painéis envidraçados que me providenciariam uma vista sobre a Casa Dançante, a ponte, o rio e a ilha. E assim foi.

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Ainda me deleitava com a envolvência romântica, quando me foi entregue o menu, em inglês, com preços em coroas e em euros. Decidi experimentar uma salada grega, ao que se seguiria o tal chocolate quente, à laia de sobremesa e aconchego para a leitura que já ia antecipadamente saboreando. Com um timing perfeito a senhora voltou à mesa para anotar a encomenda; com um profissionalismo assinalável registou desde logo o pedido da bebida apenas para depois da refeição ligeira, perguntou se ia querer um cesto de pão e partiu para transmitir os meus desejos à copa.

O espaço estava quase vazio, mas dois pequenos grupos de turistas preveniam aquela incomodativa sensação de abandono, oferecendo uma presença calorosa mas discreta. A sala encontra-se arranjada em conformidade com a escolha temática, com móveis clássicos, longos bancos almofadados em couro a acompanhar as robustas mesas colocadas a estibordo e bombordo, com uma longa linha de mesas colocadas no centro do convés.

Na popa, ao ar livre, umas poucas mesas de menores dimensões, redondas, permitem o usufruto do espaço em melhores dias, e, voltando ao interior, existem umas quantas daquele tipo colocadas nos cantos, para melhor aproveitamento da área.

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Lá fora, imponentes cisnes passavam junto ao casco, um par de metros abaixo da minha localização. Na ilha, as silhuetas das árvores já despidas de folhas recortam-se contra o céu escuro, com o majestoso castelo de Praga como pano de fundo. A noite começa a cair sobre a cidade quando me é trazida a salada. O prato é de excelente confeção. Os produtos utilizados são frescos e perfeitamente adequados: azeitonas de preparação caseira, pimentos de três cores cortados em finos pedaços, assim como pepino, tomate e cebola de casca vermelha. Tudo isto coroado por uma generosa fatia de queijo feta e um tempero apurado, reforçado por uma pitada de pimenta fresca que o empregado aplicou, já na mesa, depois de me perguntar se assim o desejava.

Como com muito prazer, apreciando o ambiente e a paisagem exterior, enquanto me felicito interiormente pela escolha que se veio a revelar tão acertada. Terminada a refeição, o prato é levantado com presteza, e é-me trazida uma chávena de chocolate quente. Denso, com uma película que se forma à superfície, e que acaba por desempenhar um papel prático, mantendo o calor do líquido.

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Passei ali mais uma hora, bebericando da chávena, enquanto lia os primeiros artigos de uma National Geographic Magazine adquirida durante a tarde. A noite adensou-se e foi-me dada a contemplar uma perspetiva do castelo de Praga no esplendor da sua iluminação noturna. Da mesa onde me encontro tenho um ângulo de vista especialmente adequado, com a estrutura a erguer-se defronte de mim.

Na hora da despedida deixo uma generosa gorjeta, inevitável, perante o enorme prazer que este bocadinho me proporcionou e o eficiente serviço dos dois colaboradores que me acompanharam. Um espaço que me há-de ver voltar vezes sem conta.

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Ideal para uma tarde chuvosa, quando não apetece fazer mais nada, e as quatro paredes do quarto são já pequenas para nos conter. Será sem dúvida um local agradável para dias mais solarengos, especialmente se conseguir uma das mesas exteriores, mas haverá que contar com alguma concorrência na luta pelos melhores lugares.

Como Ir: Um bom ponto de referência é a Casa Dançante, como pode ver na primeira imagem. De resto, o barco encontra-se no passeio ribeirinho, entre a ponte Jiuraskuv e a ilha Slovansky. Se quiser usar o metro poderá sair na estação de Karlovo Namesti – linha amarela.

Quanto Custa: Saladas na ordem dos 6 Eur. Pratos principais a rondar os 12 Eur. Chocolate quente a 2,40 Eur. Preços de 2009.

Quando Ir: Aberto diariamente entre as 9:00 e as 23:30. Recomendo o final de tarde, com o cair da noite a destacar a iluminação do castelo.

Contactos: Botel Matylda Rasinovo Nabrezi – Praga 1 – Telefone +420 724 800 100 – Website www.botelmatylda.cz

 

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Ricardo Ribeiro viveu durante três anos em Praga, apenas pelo amor à cidade e um dia decidiu criar um website dedicado à sua paixão. Actualmente mantém os fortes laços emocionais e sociais com Praga e passa alguns meses por ano por lá.

3 Comentários

    • Para ser honesto nunca lá estive, mas claro que conheço, no plano teórico. Costumava ser um restaurante francês de preços interditivos. Mas mudou de gerência e tornou-se mais acessível. Como em quase todo o lado na Rep. Checa, pode-se ir lá apenas para tomar uma bebida, como se fosse um café.

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